“Marmotagem” virou uma palavra fácil para desqualificar o culto alheio. Muitas vezes, basta ver uma prática diferente para surgir a sentença: “Eu não faço assim, então está errado.” Quem toma o próprio modo de fazer como regra para todos já decidiu antes de compreender o que está vendo.
Um sacerdote pode precisar de um boi para resolver determinada situação. Outro, diante do mesmo problema, pode conseguir resolver com uma vela e um copo d’água. A questão não é o que foi usado, mas se resolveu. Se um precisa de muito e o outro de pouco para chegar ao mesmo resultado, o critério continua sendo um só: funcionou ou não funcionou?
Na incorporação vale a mesma regra. Um pode pular, mudar a voz, tremer e fazer toda uma encenação; outro pode se manifestar de forma contida. Nada disso, por si só, prova presença espiritual. A questão é outra: o que essa entidade fala se confirma? O que ela faz produz efeito na vida do adepto? Não é a aparência da incorporação que valida o espírito, mas a confirmação do que ele anuncia e a eficácia do que realiza.
O mesmo vale para quem ocupa uma função sacerdotal. Autoridade ritual não se estabelece por autoproclamação. Os estudos sobre especialistas rituais mostram que competência só se transforma em autoridade quando encontra reconhecimento social: a comunidade acompanha, consulta, observa os resultados e, com o tempo, reconhece naquele sacerdote alguém capaz de exercer determinada função.
É aí que o critério muda. Não importa apenas o que alguém diz ser, nem se trabalha exatamente como você aprendeu. Importa se aquilo que faz produz resultado e se essa eficácia é reconhecida pela comunidade que acompanha seu trabalho. Título pode ser anunciado; autoridade precisa ser reconhecida. No fim, é a eficácia sustentada no tempo que transforma competência em reconhecimento.