Quem decide o que é bem e o que é mal?

Em 1452, o papa Nicolau V promulgou a bula Dum Diversas. O documento concedia ao...

Em 1452, o papa Nicolau V promulgou a bula Dum Diversas. O documento concedia ao rei Afonso V de Portugal autoridade para invadir, conquistar e subjugar povos classificados como “sarracenos”, “pagãos” e “infiéis”, reduzindo suas pessoas à servidão perpétua e apropriando-se de seus territórios e bens.

A escravidão não foi sustentada apenas pela força. Ela recebeu legitimidade jurídica, interesse econômico e justificação religiosa. A conquista foi apresentada como expansão da fé cristã, enquanto a submissão de outros povos era convertida em missão espiritual. A violência não precisava ser escondida; bastava que fosse praticada sob uma classificação moral capaz de torná-la aceitável.

Matar é considerado uma das maiores expressões do mal. Entretanto, quando a morte recebe autorização do Estado e acontece em uma guerra, o responsável pode ser condecorado como herói. A mesma sociedade que condena o assassino entrega medalhas a quem matou em seu nome. O julgamento não depende somente do ato, mas da autoridade que o ordena e dos interesses que ele atende.

Na religião, essa mesma lógica determina quais experiências serão reconhecidas como sagradas e quais serão condenadas como malignas. A própria fé é apresentada como expressão do bem; a religião alheia, como manifestação do mal. Quando a contradição ocorre dentro do próprio grupo, recebe justificativa, silêncio ou perdão. Quando acontece fora dele, transforma-se em prova de perversidade.

Essa seletividade também se reproduz no comportamento individual. A hipocrisia aparece quando alguém usa os valores de sua cultura para vigiar a vida dos outros, mas não submete a própria conduta ao mesmo rigor. Condena crenças, costumes e escolhas alheias enquanto administra suas próprias contradições em silêncio. O falso moralista acusa em público aquilo que pratica em silêncio.